terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Eu não vou te superar. O primeiro passo é admitir o problema, certo? Então é isso. Enquanto houver qualquer coisa, haverá uma pontinha de esperança e eu não vou te superar porque eu não vou querer, porque uma parte de mim ainda vai acreditar que é possível. Eu tenho duas opções: colocar um ponto nessa história, abrir o jogo e seguir minha vida consciente de que não há lugar pra mim na sua. Ou eu posso continuar aqui, gostando tanto de você que até prefiro esconder, deixando assim ficar subentendido como uma ideia que existe na cabeça e não tem a menor pretensão de acontecer. Posso simplesmente gostar sem ter nada em troca, porque essa outra parte de mim acredita que isso me faz melhor do que não ter nem um pedacinho de você. Eu posso ser feliz sem você saber.
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aquele segredo
domingo, 23 de dezembro de 2012
Os últimos dias foram bem fora do planejado, o que não me assusta tanto por estarmos no fim do ano. Essa época costuma ser meio bad mesmo, independentemente de quão bom os meses anteriores tenham sido. Afinal, 2012 foi sensacional, acima de todas as minhas expectativas. Não imaginei que metade do que aconteceu fosse possível. Tenho mais boas histórias para não contar para os meus netos do que nos outros 20 anos anteriores. Mas de volta aos fatos, esse último fim de semana deu bem errado pro meu gosto. E agora, às vésperas da esperada segunda-feira, eu já não sei se a notícia que esperava ouvir me deixará tão feliz assim. De repente eu já não sinto mais tanta vontade de viajar. Ao mesmo tempo, não sinto vontade de estar aqui. Um plano C cairia bem, há coisas simples que me fariam tão bem. Mas neste exato momento, como já é de praxe em dezembro, eu não consigo me sentir bem assim.
sábado, 15 de dezembro de 2012
Eu não sei se esse é meu ponto final nessa história que eu inventei sozinha. E embora meu superego queira que seja, há uma voz que me diz que muitas lágrimas desnecessárias ainda irão rolar. Mandar em seu próprio cérebro não é tão simples quanto entendê-lo.
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aquele segredo
Eu precisei passar por tudo isso pra conseguir entender, sozinha, o fato óbvio que meus amigos tentaram me enfiar goela abaixo: eu mereço mais. Parece simples mas eu precisava sentir, por mim mesma, pra poder admitir. Precisava de todas essas lágrimas, de toda essa vontade de não querer mais sendo ofuscada pela vontade de só querer de novo. Eu precisava achar que sabia o que era bom pra mim, mesmo sabendo perfeitamente que não era. Precisava achar que era ideal, quando ideal era o personagem que eu havia criado na minha mente perturbada. Eu precisava sofrer pra perceber que eu, na verdade, não precisava.
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aquele segredo
sábado, 8 de dezembro de 2012
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Engraçado que eu trabalho no coração da cidade e quase nunca dei muita atenção a isso. Mas hoje, quando eu desci do ônibus lá pelas 9h da manhã, comecei a olhar para aquelas construções incríveis e me deu uma alegria muito grande. Cada passo, cada prédio, cada inspiração. E mesmo depois, enquanto fumava meu cigarro depois do almoço, quando ia lá pra EMB... Hoje eu me deixei inspirar pela cidade. Um sentimento muito bom que eu tinha experimentado lá em 2009 quando ia pra UnB de manhã.. E aquela vontade louca de correr atrás daquele sonho que ficou guardado, e que eu quase retomei semanas atrás. O ar estava lindo e as ruas também.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Me dói. Não poder te ver. Te ter. Não poder sacudir a sua cabeça e te obrigar a gostar de mim. Me dói. Ouvir as músicas que falam sobre você. Sobre mim. Sobre esse nós que não vai existir. Me dói. Você.
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aquele segredo
domingo, 18 de novembro de 2012
sábado, 17 de novembro de 2012
Eu tô cheia de ódio no coração então resolvi escrever pois quase sempre funciona pra me acalmar. Nos últimos dias me senti tão pequena, tão impotente, e tão... castigada, por ter escolhido viver assim. Me senti sendo empurrada para o fundo de um poço do qual acabei de consegui sair. Mas ao invés de entregar-me à fossa, senti raiva. Raiva do mundo, e muita raiva das minhas escolhas. Senti raiva pelos erros cometidos nos últimos 4 anos. Ou nos últimos 7, acho que os erros começaram bem mais atrás. Nunca é tarde pra mudar eu sei, mas é foda pensar que eu poderia estar bem mais à frente hoje. É foda pensar que eu já poderia estar quase formada, com um emprego decente, e ao invés disso... tô apenas sendo o que eu poderia ter sido há uns anos aí. É foda não ter meu carro ainda, não ter conseguido sair de casa, estar bem longe de cumprir meus pequenos sonhos adolescentes. Talvez eu devesse ter uns sonhos menos pé no chão, talvez a frustração fosse menor ou desprezível. Eu não sei qual o próximo passo, só sei que preciso, desesperadamente, seguir. E mudar.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Quando criança eu odiava feriados. Não gosto, nem nunca gostei, de ficar em casa. E naquela época isso não era opção. Meus pais não gostavam de sair ou pelo menos não gostavam de sair comigo. Se eu quisesse sair sozinha, não tinha dinheiro, e se tivesse dinheiro, não tinha autorização. Eu estava fadada a ficar olhando pro teto, pois quase sempre estava de castigo. E se não tivesse, a tv era monopolizada, brincar na rua? Nem pense nisso. Eu acabava trancada em casa mesmo. Era triste e entediante. Às vezes violento, mas deixa isso pra lá. O fato é que eu ficava ansiosa pra ir pra escola de novo, ao contrário de quase a totalidade das crianças. Era a única saída pro mundo real que eu tinha e eu gostava tanto dele. Segunda-feira era meu dia preferido, janeiro era o mês que eu mais odiava. Hoje graças à minha quase-independência financeira eu consegui reverter essa história e me adequar à maioria. É claro, continuo odiando ficar em casa, me refiro à amar loucamente os feriados, as sextas-feiras, o fim de ano, o carnaval, a vida lá fora.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Eu me lembro daquela noite. Não porque tenha sido boa. Mas porque eu queria tanto que estivesse sendo boa pra você. Eu queria tanto ser boa pra você. Eu me lembro de algumas coisas que você me disse. Eu me lembro de algumas músicas que você me mostrou e claro que tô ouvindo uma delas agora. Eu me lembro daquele trecho que você repetiu e vejo o tanto que faz sentido. O tanto que você faz sentido. Eu me lembro de coisas que você com certeza não lembra, mas isso pra mim não tem importância. Eu gosto de lembrar. Eu gosto de gostar sem ter nada em troca. E quero, mais do que nunca, voltar a ser assim. Até porque eu nunca precisei que você também gostasse tanto assim de mim.
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aquele segredo
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Às vezes eu acho que seria mais fácil carregar isso sozinha como eu fazia antes. Não ter espaço pra desabafar me dava uma ilusão de que o sentimento nem estava lá. Me forçava a sempre querer esquecer e nunca querer achar que um dia as coisas iriam mudar. Me fazia realmente abstrair. Sempre. A felicidade só é verdadeira quando compartilhada... e o sofrimento?
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aquele segredo
Eu te odeio de tantas formas diferentes. Porque insisto em gostar de você?
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aquele segredo,
aquele segredo que até você já sabe
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Quando o ponto alto do seu dia é a lua linda em meio ao céu ainda claro. Naquele calor brasiliense das seis da tarde horário de verão. A grama suja no meu cabelo cereja. A cigarrilha de cravo levando a minha pressão lá pra baixo. A lua linda lá no céu, as árvores da universidade montando um cenário nostálgico de solidão. Todo o sofrimento reunido num instante.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Então é isso... você me fumou. E agora tô sendo forçada a te fumar também. Não queria mesmo, é tão difícil pra mim gostar de alguém. As pessoas são muito chatas, eu perco a paciência rápido demais, nada dura mais que uma noite. Aliás difícil mesmo é durar uma noite inteira, eu já me canso em 5 minutos. Daí sei lá, com você foi tão diferente. E agora você age da mesma forma que eu ajo com todo mundo. Usa as mesmas desculpas, o mesmo discurso vago de quem quer, mas na verdade quer deixar no ar. Porque sei lá, ou porque não mesmo, mas não sei dizer assim na lata... você até que é bonitinha, só que eu quero curtir a vida. E eu também, o que é mais bizarro ainda. Ah, a gente se parece tanto. Uma noite qualquer, que tinha tudo pra ser outra balada fail, mas aí você me achou, e eu que nem sabia que te queria, você pra mim era só mais um bonitinho, que eu até pegaria em outros carnavais. E você me achou, e de repente eu tava lá, pela primeira vez em muito tempo curtindo estar com alguém. Rolou um plus que não rolava há muito. Química é um lance complicado. Se fosse só isso tava tudo certo, mas você tinha que ser tão legal? Pareceu uma chance pra mim mesma de me dar uma chance. É difícil pra mim ser fumada assim, pelo simples fato de que eu nunca me importo, porque nunca quero ninguém. E por muitos motivos loucos eu agora quero você.
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aquele feriado
domingo, 23 de setembro de 2012
Não é justo que você seja tão lindo assim comigo, justo agora que eu estava disposta a te superar. Não é justo... todos esses abraços e palavras doces que nunca estiveram ao meu alcance me serem oferecidos... justo agora. Eu não mereço todo esse carinho. Eu já não entendo o que quer dizer. Por favor, me faça te odiar porque eu não quero mais te querer.
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aquele segredo
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Não é sobre você não perceber o quanto eu gosto de você. É sobre você, por favor, não notar, mas notar tudo que eu posso ser. Pra você. É sobre eu não querer te mudar.
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terça-feira, 11 de setembro de 2012
Eu queria tanto mudar e mudei. Passei de melo-dramática à pessoa mais fria que você já conheceu. Mudei a cor do meu cabelo, mudei meu guarda-roupa. Mudei meus sapatos, mudei meu corpo e minha rotina. Mudei de curso, de trabalho. Mudei meus preconceitos. Mudei minha opinião sobre questões polêmicas. Mudei alguns amigos. Mudei de amores, ah, como mudei de amores. Mudei meus sonhos lindos por outros tão pequenos. Mudei meus planos de vida. Mudei tanto meus objetivos. E saí mudando tudo, mas por mais que tentei não consegui mudar minha essência. É impossível ser tão insensível assim.
domingo, 9 de setembro de 2012
sexta-feira, 29 de junho de 2012
É em dias horrorosos assim que eu acho que ainda sinto falta. Talvez eu sinta falta de ouvir a sua voz antes de dormir, de sabe, nem precisar te contar a merda que foi o meu dia, de bastar ouvir sua voz e esquecer que a vida tava uma bosta. Sabe, só ouvir sua voz e ficar feliz, do nada. Por algumas horas e pronto. Sinto falta, o que não quer dizer que eu queria tudo de volta, porque não quero. Talvez eu até quisesse sua voz hoje pra me fazer dormir, mas sabe, só sua voz, e só hoje. Ou talvez outro dia, mas sabe, só sua voz. Só. E claro, você.
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aquela panterinha
sábado, 16 de junho de 2012
Eu quero muito olhar pra frente e esquecer você. Só que não. Só que eu quero muito que tu olhe pra mim e me ache um mínimo interessante. Nem precisa. Só olhe para mim. Só queira. Só... sei lá, me deixa te querer. Me dê qualquer espaço. Qualquer 15 minutos do seu dia. Qualquer bom dia. Só me deixa ser... qualquer pedaço, qualquer vadia. Só me deixa ser um pouco. Me deixa ser...
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aquele segredo
Aquele momento em que tu não sabe se é a pessoa ou só o que ela já teve a oferecer.
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quarta-feira, 6 de junho de 2012
segunda-feira, 4 de junho de 2012
terça-feira, 24 de abril de 2012
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Aquela história sobre o sofrimento potencializar a criatividade... é verdade. Mas eu me recuso. Me recuso a me entregar a velhas lembranças só pra escrever meia dúzia de palavras bonitas. Me recuso a ficar refletindo sobre a mais estranha mensagem da madrugada. Eu estou feliz e me recuso a regredir meus pensamentos a todo sofrimento que me trouxe até aqui.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Sobre o amor
(Ferreira Gullar)
Houve uma época em que eu pensava que as pessoas deviam ter um gatilho na garganta: quando pronunciasse — eu te amo —, mentindo, o gatilho disparava e elas explodiam. Era uma defesa intolerante contra os levianos e que refletia sem dúvida uma enorme insegurança de seu inventor. Insegurança e inexperiência. Com o passar dos anos a idéia foi abandonada, a vida revelou-me sua complexidade, suas nuanças. Aprendi que não é tão fácil dizer eu te amo sem pelo menos achar que ama e, quando a pessoa mente, a outra percebe, e se não percebe é porque não quer perceber, isto é: quer acreditar na mentira. Claro, tem gente que quer ouvir essa expressão mesmo sabendo que é mentira. O mentiroso, nesses casos, não merece punição alguma.
Por aí já se vê como esse negócio de amor é complicado e de contornos imprecisos. Pode-se dizer, no entanto, que o amor é um sentimento radical — falo do amor-paixão — e é isso que aumenta a complicação. Como pode uma coisa ambígua e duvidosa ganhar a fúria das tempestades? Mas essa é a natureza do amor, comparável à do vento: fluido e arrasador. É como o vento, também às vezes doce, brando, claro, bailando alegre em torno de seu oculto núcleo de fogo.
O amor é, portanto, na sua origem, liberação e aventura. Por definição, anti-burguês. O próprio da vida burguesa não é o amor, é o casamento, que é o amor institucionalizado, disciplinado, integrado na sociedade. O casamento é um contrato: duas pessoas se conhecem, se gostam, se sentem atraídas uma pela outra e decidem viver juntas. Isso poderia ser uma coisa simples, mas não é, pois há que se inserir na ordem social, definir direitos e deveres perante os homens e até perante Deus. Carimbado e abençoado, o novo casal inicia sua vida entre beijos e sorrisos. E risos e risinhos dos maledicentes. Por maior que tenha sido a paixão inicial, o impulso que os levou à pretoria ou ao altar (ou a ambos), a simples assinatura do contrato já muda tudo. Com o casamento o amor sai do marginalismo, da atmosfera romântica que o envolvia, para entrar nos trilhos da institucionalidade. Torna-se grave. Agora é construir um lar, gerar filhos, criá-los, educá-los até que, adultos, abandonem a casa para fazer sua própria vida. Ou seja: se corre tudo bem, corre tudo mal. Mas, não radicalizemos: há exceções — e dessas exceções vive a nossa irrenunciável esperança.
Conheci uma mulher que costumava dizer: não há amor que resista ao tanque de lavar (ou à máquina, mesmo), ao espanador e ao bife com fritas. Ela possivelmente exagerava, mas com razão, porque tinha uns olhos ávidos e brilhantes e um coração ansioso. Ouvia o vento rumorejar nas árvores do parque, à tarde incendiando as nuvens e imaginava quanta vida, quanta aventura estaria se desenrolando naquele momento nos bares, nos cafés, nos bairros distantes. À sua volta certamente não acontecia nada: as pessoas em suas respectivas casas estavam apenas morando, sofrendo uma vida igual à sua. Essa inquietação bovariana prepara o caminho da aventura, que nem sempre acontece. Mas dificilmente deixa de acontecer. Pode não acontecer a aventura sonhada, o amor louco, o sonho que arrebata e funda o paraíso na terra. Acontece o vulgar adultério — o assim chamado —, que é quase sempre decepcionante, condenado, amargo e que se transforma numa espécie de vingança contra a mediocridade da vida. É como uma droga que se toma para curar a ansiedade e reajustar-se ao status quo. Estou curada, ela então se diz — e volta ao bife com fritas.
Mas às vezes não é assim. Às vezes o sonho vem, baixa das nuvens em fogo e pousa aos teus pés um candelabro cintilante. Dura uma tarde? Uma semana? Um mês? Pode durar um ano, dois até, desde que as dificuldades sejam de proporção suficiente para manter vivo o desafio e não tão duras que acovardem os amantes. Para isso, o fundamental é saber que tudo vai acabar. O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repente, acaba. E é necessário que acabe como começou, de golpe, cortado rente na carne, entre soluços, querendo e não querendo que acabe, pois o espírito humano não comporta tanta realidade, como falou um poeta maior. E enxugados os olhos, aberta a janela, lá estão as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo céu deserto de anjos. O alívio se confunde com o vazio, e você agora prefere morrer.
A barra é pesada. Quem conheceu o delírio dificilmente se habitua à antiga banalidade. Foi Gogol, no Inspetor Geral quem captou a decepção desse despertar. O falso inspetor mergulhara na fascinante impostura que lhe possibilitou uma vida de sonho: homenagens, bajulações, dinheiro e até o amor da mulher e da filha do prefeito. Eis senão quando chega o criado, trazendo-lhe o chapéu e o capote ordinário, signos da sua vida real, e lhe diz que está na hora de ir-se pois o verdadeiro inspetor está para chegar. Ele se assusta: mas então está tudo acabado? Não era verdade o sonho? E assim é: a mais delirante paixão, terminada, deixa esse sabor de impostura na boca, como se a felicidade não pudesse ser verdade. E no entanto o foi, e tanto que é impossível continuar vivendo agora, sem ela, normalmente. Ou, como diz Chico Buarque: sofrendo normalmente.
Evaporado o fantasma, reaparece em sua banal realidade o guardaroupa, a cômoda, a camisa usada na cadeira, os chinelos. E tudo impregnado da ausência do sonho, que é agora uma agulha escondida em cada objeto, e te fere, inesperadamente, quando abres a gaveta, o livro. E te fere não porque ali esteja o sonho ainda, mas exatamente porque já não está: esteve. Sais para o trabalho, que é preciso esquecer, afundar no dia-a-dia, na rotina do dia, tolerar o passar das horas, a conversa burra, o cafezinho, as notícias do jornal. Edifícios, ruas, avenidas, lojas, cinema, aeroportos, ônibus, carrocinhas de sorvete: o mundo é um incomensurável amontoado de inutilidades. E de repente o táxi que te leva por uma rua onde a memória do sonho paira como um perfume. Que fazer? Desviar-se dessas ruas, ocultar os objetos ou, pelo contrário, expor-se a tudo, sofrer tudo de uma vez e habituar-se? Mais dia menos dia toda a lembrança se apaga e te surpreendes gargalhando, a vida vibrando outra vez, nova, na garganta, sem culpa nem desculpa. E chegas a pensar: quantas manhãs como esta perdi burramente! O amor é uma doença como outra qualquer.
E é verdade. Uma doença ou pelo menos uma anormalidade. Como pode acontecer que, subitamente, num mundo cheio de pessoas, alguém meta na cabeça que só existe fulano ou fulana, que é impossível viver sem essa pessoa? E reparando bem, tirando o rosto que era lindo, o corpo não era lá essas coisas… Na cama era regular, mas no papo um saco, e mentia, dizia tolices, e pensar que quase morro!…
Isso dizes agora, comendo um bife com fritas diante do espetáculo vesperal dos cúmulos e nimbos. Em paz com a vida. Ou não.
Houve uma época em que eu pensava que as pessoas deviam ter um gatilho na garganta: quando pronunciasse — eu te amo —, mentindo, o gatilho disparava e elas explodiam. Era uma defesa intolerante contra os levianos e que refletia sem dúvida uma enorme insegurança de seu inventor. Insegurança e inexperiência. Com o passar dos anos a idéia foi abandonada, a vida revelou-me sua complexidade, suas nuanças. Aprendi que não é tão fácil dizer eu te amo sem pelo menos achar que ama e, quando a pessoa mente, a outra percebe, e se não percebe é porque não quer perceber, isto é: quer acreditar na mentira. Claro, tem gente que quer ouvir essa expressão mesmo sabendo que é mentira. O mentiroso, nesses casos, não merece punição alguma.
Por aí já se vê como esse negócio de amor é complicado e de contornos imprecisos. Pode-se dizer, no entanto, que o amor é um sentimento radical — falo do amor-paixão — e é isso que aumenta a complicação. Como pode uma coisa ambígua e duvidosa ganhar a fúria das tempestades? Mas essa é a natureza do amor, comparável à do vento: fluido e arrasador. É como o vento, também às vezes doce, brando, claro, bailando alegre em torno de seu oculto núcleo de fogo.
O amor é, portanto, na sua origem, liberação e aventura. Por definição, anti-burguês. O próprio da vida burguesa não é o amor, é o casamento, que é o amor institucionalizado, disciplinado, integrado na sociedade. O casamento é um contrato: duas pessoas se conhecem, se gostam, se sentem atraídas uma pela outra e decidem viver juntas. Isso poderia ser uma coisa simples, mas não é, pois há que se inserir na ordem social, definir direitos e deveres perante os homens e até perante Deus. Carimbado e abençoado, o novo casal inicia sua vida entre beijos e sorrisos. E risos e risinhos dos maledicentes. Por maior que tenha sido a paixão inicial, o impulso que os levou à pretoria ou ao altar (ou a ambos), a simples assinatura do contrato já muda tudo. Com o casamento o amor sai do marginalismo, da atmosfera romântica que o envolvia, para entrar nos trilhos da institucionalidade. Torna-se grave. Agora é construir um lar, gerar filhos, criá-los, educá-los até que, adultos, abandonem a casa para fazer sua própria vida. Ou seja: se corre tudo bem, corre tudo mal. Mas, não radicalizemos: há exceções — e dessas exceções vive a nossa irrenunciável esperança.
Conheci uma mulher que costumava dizer: não há amor que resista ao tanque de lavar (ou à máquina, mesmo), ao espanador e ao bife com fritas. Ela possivelmente exagerava, mas com razão, porque tinha uns olhos ávidos e brilhantes e um coração ansioso. Ouvia o vento rumorejar nas árvores do parque, à tarde incendiando as nuvens e imaginava quanta vida, quanta aventura estaria se desenrolando naquele momento nos bares, nos cafés, nos bairros distantes. À sua volta certamente não acontecia nada: as pessoas em suas respectivas casas estavam apenas morando, sofrendo uma vida igual à sua. Essa inquietação bovariana prepara o caminho da aventura, que nem sempre acontece. Mas dificilmente deixa de acontecer. Pode não acontecer a aventura sonhada, o amor louco, o sonho que arrebata e funda o paraíso na terra. Acontece o vulgar adultério — o assim chamado —, que é quase sempre decepcionante, condenado, amargo e que se transforma numa espécie de vingança contra a mediocridade da vida. É como uma droga que se toma para curar a ansiedade e reajustar-se ao status quo. Estou curada, ela então se diz — e volta ao bife com fritas.
Mas às vezes não é assim. Às vezes o sonho vem, baixa das nuvens em fogo e pousa aos teus pés um candelabro cintilante. Dura uma tarde? Uma semana? Um mês? Pode durar um ano, dois até, desde que as dificuldades sejam de proporção suficiente para manter vivo o desafio e não tão duras que acovardem os amantes. Para isso, o fundamental é saber que tudo vai acabar. O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repente, acaba. E é necessário que acabe como começou, de golpe, cortado rente na carne, entre soluços, querendo e não querendo que acabe, pois o espírito humano não comporta tanta realidade, como falou um poeta maior. E enxugados os olhos, aberta a janela, lá estão as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo céu deserto de anjos. O alívio se confunde com o vazio, e você agora prefere morrer.
A barra é pesada. Quem conheceu o delírio dificilmente se habitua à antiga banalidade. Foi Gogol, no Inspetor Geral quem captou a decepção desse despertar. O falso inspetor mergulhara na fascinante impostura que lhe possibilitou uma vida de sonho: homenagens, bajulações, dinheiro e até o amor da mulher e da filha do prefeito. Eis senão quando chega o criado, trazendo-lhe o chapéu e o capote ordinário, signos da sua vida real, e lhe diz que está na hora de ir-se pois o verdadeiro inspetor está para chegar. Ele se assusta: mas então está tudo acabado? Não era verdade o sonho? E assim é: a mais delirante paixão, terminada, deixa esse sabor de impostura na boca, como se a felicidade não pudesse ser verdade. E no entanto o foi, e tanto que é impossível continuar vivendo agora, sem ela, normalmente. Ou, como diz Chico Buarque: sofrendo normalmente.
Evaporado o fantasma, reaparece em sua banal realidade o guardaroupa, a cômoda, a camisa usada na cadeira, os chinelos. E tudo impregnado da ausência do sonho, que é agora uma agulha escondida em cada objeto, e te fere, inesperadamente, quando abres a gaveta, o livro. E te fere não porque ali esteja o sonho ainda, mas exatamente porque já não está: esteve. Sais para o trabalho, que é preciso esquecer, afundar no dia-a-dia, na rotina do dia, tolerar o passar das horas, a conversa burra, o cafezinho, as notícias do jornal. Edifícios, ruas, avenidas, lojas, cinema, aeroportos, ônibus, carrocinhas de sorvete: o mundo é um incomensurável amontoado de inutilidades. E de repente o táxi que te leva por uma rua onde a memória do sonho paira como um perfume. Que fazer? Desviar-se dessas ruas, ocultar os objetos ou, pelo contrário, expor-se a tudo, sofrer tudo de uma vez e habituar-se? Mais dia menos dia toda a lembrança se apaga e te surpreendes gargalhando, a vida vibrando outra vez, nova, na garganta, sem culpa nem desculpa. E chegas a pensar: quantas manhãs como esta perdi burramente! O amor é uma doença como outra qualquer.
E é verdade. Uma doença ou pelo menos uma anormalidade. Como pode acontecer que, subitamente, num mundo cheio de pessoas, alguém meta na cabeça que só existe fulano ou fulana, que é impossível viver sem essa pessoa? E reparando bem, tirando o rosto que era lindo, o corpo não era lá essas coisas… Na cama era regular, mas no papo um saco, e mentia, dizia tolices, e pensar que quase morro!…
Isso dizes agora, comendo um bife com fritas diante do espetáculo vesperal dos cúmulos e nimbos. Em paz com a vida. Ou não.
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